Balaios, by Musicalidade BR

A música sem fronteiras de Antonio Adolfo

Em entrevista exclusiva, o pianista comenta sua extensa carreira e seu mais recente lançamento, 'Balaios'

“Adorei esse nome ‘Musicalidade’. É uma bela forma de batizar um portal.” elogia Antonio Adolfo em entrevista exclusiva. O jeito gentil e pacato do músico faz até não parecer que ele é um dos maiores pianistas, arranjadores e compositores do país.

Antonio tocou com os grandes e como os grandes. Começou sua trajetória na segunda geração da bossa nova, ao lado de Marcos Valle e Edu Lobo. Porém, em seu caso, sua experiência era bastante diversa.

Seus discos vão para além do gênero sessentista que incorporou ritmos mais dançantes às influências do jazz norte-americano. O músico abraçou o funk, a soul music e, mais recentemente, até mesmo ritmos carnavalescos em suas composições. Caso de Carnaval – The Songs Were So Beautiful (2025), que traz releituras instrumentais de clássicos carnavalescos misturando samba, jazz, frevo e, claro, bossa nova.

“Eu nunca neguei as minhas tendências de gostar de música de carnaval. Apesar de serem apresentadas de uma forma mais ‘quadradinha’, por causa dos bailes, eu sentia a melodia daquelas letras”, comenta.

De reconhecimento internacional, o pianista teve seu sucesso Sá Marina (1968) – criado ao lado de seu mais longevo parceiro de composição, o violinista e letrista Tibério Gaspar – gravado pelo soulman norte-americano Stevie Wonder em 1970 (rebatizado como Pretty World) e pelo cantor carioca Wilson Simonal e, em 1999, virou o primeiro single da carreira solo de Ivete Sangalo.

Junto de Tibério, seu braço direito, também compôs o hit BR-3 (1971), originalmente pensado para o Tim Maia, mas eternizado pela voz de Tony Tornado.

Naquele período todo mundo queria fazer bossa nova, que era a música moderna da época, mas Antonio tinha uma outra pegada. “Eu via beleza em vários estilos em músicas, desde que elas fossem sinceras, que não tinham pretensão de ganhar dinheiro somente”, professa.

Na sexta-feira, dia 17, Antonio lançou o álbum Balaios, que é uma espécie de retorno às suas raízes. “Eu sou um músico de jazz, eu sou um músico de bossa nova. Eu consigo abraçar todas essas tendências, todos esses estilos, mas de uma forma pessoal”, elucida.

Nos anos 1960, teve suas explorações iniciais no instrumental Trio 3D (que em 1967, com a inserção da cantora Beth Carvalho, é rebatizado como Conjunto 3D).

Inicialmente ao lado de Carlos Monjardim (contrabaixo) e Nelson Serra de Castro (bateria), o famoso grupo brasileiro de samba/bossa-jazz instrumental trouxe sucessos como Tamanco No Samba (1965) e Água de Beber (também de 1965), que é uma versão jazzística do clássico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

O pianista também foi um colaborador fundamental na carreira de Elis Regina, acompanhado a cantora em suas turnês europeias (incluindo uma temporada no Olympia de Paris em 1968) na qual a cantora também eternizou a canção Sá Marina.

Em 1976, o pianista e arranjador participou de uma sessão de gravação ao lado do vocalista inglês Mick Jagger no estúdio carioca da PolyGram (atual Universal Music), onde, anos mais tarde os Rolling Stones lançaram uma semelhante versão sinuosa da música que gravaram, a Scarlet.

Sempre inquieto, também foi o precursor da música independente nacional. Após se consolidar como um exímio arranjador, lançou Feito em Casa (1977), o primeiro disco independente da história. Trajeto que se mantém em Balaios. “Como eu tô nesse canal da produção independente desde os anos 1970, eu tenho a chance de produzir os discos que eu quero”, comenta.

Tal “canal” culminou no, também indie, Vira Lata (1977), que abre as portas do jazz para esse reconhecimento internacional e longe das gravadoras. “Eu faço tudo com muita paixão, eu acho que eu tenho uma técnica suficiente para fazer discos bem acabados”, complementa o pianista.

Também explorou o blues ao lado da cantora Angela Ro Ro, formando uma das parcerias mais sofisticadas e bem-sucedidas da MPB. O arranjador foi fundamental para moldar o som intimista do álbum de estreia homônimo da vocalista em 1979, além de salvar artisticamente o disco Simples carinho de 1982.

Nessa mutação constante de ir do jazz ao blues e ao samba, o pianista brinca: “Por que não? (risos) Sempre tive meus ouvidos abertos para vários estilos de música! Inclusive, quando comecei, a música pop da época era Beatles, então por que não pegar coisa até deles!” empolga-se.

Ora como arranjador ora como um revisitador do legado da música brasileira, na mesma época fez discos em homenagem a grandes nomes. Feito presente no tributo a um dos “pais” tango brasileiro (também conhecido como maxixe), Ernesto Nazareth, Os Pianeiros (1981), e outro fazendo releituras ao legado de Chiquinha Gonzaga em Viva Chiquinha Gonzaga (1985) – pioneira da música brasileira e primeira pianista de choro.

Ainda no reduto de homenagens, tal rumo continua em álbuns recentes. Como o disco que consagra o jazzista norte-americano em Love Cole Porter (2024), e ao cantor carioca Milton Nascimento em BruMa (2020). E pretende continuar, “Queria fazer algo com Pat Metheny, que é apaixonado por Sá Marina e é um cara que eu adoro! Eu acho que seria um bom casamento musical, se tivesse uma oportunidade, quem sabe? Ainda tem tempo”, empolga.

Em Balaios, Antonio também revisita seus standards de jazz – coisa comum no gênero, com suas composições fundamentais de repertório, amplamente conhecidas, executadas e improvisadas por músicos em todo o mundo – do cancioneiro brasileiro e internacional.

No disco, apresenta novos arranjos em canções que já gravou, “Eu venho acompanhando o disco desde que eu comecei a elaborá-lo em outubro do ano passado. Aqui quis pegar músicas de diferentes épocas que não são necessariamente meus sucessos, como Sá Marina e BR3”, comenta.

Antonio Adolfo, que celebra 50 anos de produção independente em 2027, não tem pretensão alguma de parar seu fluxo intenso e longe das grandes gravadoras. “Quero continuar enquanto eu tô com vida, com força para fazer! Faço 80 anos daqui a 6 meses e poder realizar as coisas que eu estou sentindo é uma maravilha!”, comemora.

Junto de Balaios, o pianista encara todos os seus lançamentos de forma extremamente pessoal. “Eu vou acompanhando essa ‘criança’ desde a sua concepção até os primeiros passos, depois ele vai sozinho. Até a prensagem, eu fico ouvindo de uma forma técnica, agora, eu o ouço como ouvinte e começo a admirar a criança.”

Mesmo com essa biografia irretocável, ele entende seu possível ofuscamento. “Eu não choro essa falta de reconhecimento. Eu sei que é difícil para a música instrumental. Na música cantada todo mundo canta junto. Aqui o máximo que se pode fazer é assobiar a melodia (risos)!”

De extenso legado, Antonio Adolfo sempre foi avesso a rótulos. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, passou pelos mais diversos gêneros musicais com a mesma curiosidade de quem entende a música como um território sem fronteiras.

E esse espírito permanece vivo em Balaios, onde reafirma a capacidade de Antonio Adolfo de renovar repertórios sem perder a sua identidade plural. Segue olhando para frente, convencido de que a música ainda tem muito a oferecer-lhe e, sobretudo, muito a receber dele.