Encontros – Orquestra Atlantica, by Macleim (Gazeta de Alagoas), Brasil

ENCONTROS APOLÍNEOS
Não há como escrever sobre o mais recente álbum do grande Antonio Adolfo, o belíssimo Encontros – Orquestra Atlântica, sem passar pelo viés pessoal. No entanto, tal premissa, por mais significativa que seja, não seria capaz de influenciar qualquer tipo de análise específica sobre esse trabalho, pelo simples fato de ser desnecessária. Antonio Adolfo já atingiu aquele patamar de excelência, implícita aos grandes mestres! Assim sendo, a correspondência ao que ele produz se estabelece pela fruição pura e simples, que se deixa impregnar e envolver pela extraordinária musicalidade adolfiana. Portanto, as novidades contidas nesse novo trabalho, já bastariam para pontuar tudo sobre ele. Aliás, como os verdadeiros encontros entre pessoas queridas, sempre repletos de novidades aparentes ou não!
Ocorre que o citado viés pessoal pode ser definido pela minha imensa admiração, respeito e gratidão ao Antonio Adolfo pessoa física, cuja dimensão de grandeza é absolutamente correlata à sua obra. Os deuses apolíneos, generosamente, deram-me a oportunidade de cruzar caminhos profissionais e afetivos com o Antonio. Foi de imensa importância e riqueza pessoal e musical, o meu aprendizado no Centro Musical Antonio Adolfo e, posteriormente, quando tive o privilégio e a honra de trabalhar com ele. O Antonio foi como um pai para mim! Compreensivo e paciente, dadivoso e orientador! Devo muito da minha formação ética e profissional às orientações e oportunidades que me foram dadas pelo meu querido e generoso amigo. Sem falar na consolidação de uma estética musical, que descobri em seu trabalho e até hoje me é guia.
SER GREGÁRIO
Esse novo álbum, Encontros – Orquestra Atlântica, diz muito de quem é Antonio Adolfo, sobretudo, ao nos revelar sua capacidade em agregar valor à sua obra e delegar poderes como quem partilha o pão. É o que fica evidente em cada faixa desse álbum, pelos arranjos de Jessé Sadoc e Marcelo Martins, prenhos de uma sonoridade big band jazz, que emoldura gêneros como o samba, baião, bossa nova, frevo e afoxé, com um frescor revigorante ao que, por essência, já habitaria o belo. Essa capacidade gregária vai além da Orquestra Atlântica e tem amplidão nos convidados especiais para essa festa musical. As participações especialíssimas dos violonistas Claudio Jorge e Nelson Farias, do guitarrista Léo Amoedo, do Serginho Trombone, do batera Rafael Barata e da voz inconfundível do Zé Renato, dão a pitada exata nesse molho que tonifica a música instrumental brasileira!
Com a simplicidade de uma síntese, eu diria que só aí, no tempero desses músicos fantásticos, já é possível vislumbrar o conteúdo e sabor dessa obra. A Orquestra Atlântica, que existe desde 2012 e tem em sua formação onze dos mais competentes e talentosos músicos desse país, trouxe a massa sonora que dá liga a esse trabalho e fortalece a estrutura e acabamentos repletos de delicadeza e eficácia, nas mais diversas nuances tecidas e sugeridas pela música do Antonio Adolfo. E nada foi por acaso, nem fugiu aos desígnios do tempo, como conta o próprio Antonio: “Durante muito tempo esperei pela chance de gravar um álbum com um grupo grande. Em 2017, quando estava juntando ideias para o meu novo projeto, fui assistir a um concerto da Orquestra Atlântica. Foi tão mágico, que me apaixonei totalmente pelo som do grupo, e não tive opção senão convidá-los a participar da minha próxima gravação. Que alegria!”
HOMENAGENS
A realização dessa espera mostra-se definitiva e acertada, já na primeira faixa, Partido Samba-Funk (Antonio Adolfo), com o trompete de Jessé Sadoc mostrando a que veio, além do arremate discreto no vocalize do Zé Renato, que na faixa seguinte, Pentatônica (Antonio Adolfo), assume de vez essa função nos primeiros compassos após a intro, e convida o sax tenor do Marcelo Martins à partilha da melodia. Daí, todos seguem pentatonicamente criativos, mostrando que essa escala não é só coisa de iniciantes. Uma agradável surpresinha nos é apresentada na faixa 4, Luizão (Antonio Adolfo), que também é uma bela homenagem ao saudoso baixista Luizão Maia, um ícone da música brasileira, que fez parte da inesquecível Brazuca. Pois bem, nessa faixa, temos uma deliciosa citação de Cascavel. Suponho que deve ter sido o Luizão quem gravou o baixo original.
Aos que conhecem e têm familiaridade com Milestones (Miles Davis), não se surpreendam se em algum canto desse país, durante o carnaval (se houver carnaval), ouvi-la em uma versão frevo para passista nenhum botar defeito! É o resultado de mais um belo arranjo do Jessé Sadoc, cujo primeiro “passo” deve ser creditado ao Encontros – Orquestra Atlântica. Estamos na metade do disco e vamos até a última faixa por caminhos apolíneos, aonde os encontros vão se sucedendo em participações especiais, que, por sua vez, alimentam encontros com a nossa alma de fruidor atento e entregue aos prazeres de tanta musicalidade. Esse trajeto de Encontros, retro-alimenta nossa alma a cada audição, proporcionando novos encontros e descobertas em todos os dez temas desse belíssimo álbum, que tem como ponto final Sa Marina (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar), em forma escorregadia e totalmente cativante!
De acordo com o próprio Antonio Adolfo, a última vez em que ele esteve aqui no nosso aquário, foi lá pelos idos de 1980, com o Projeto Pixinguinha, e ele lembra bem: “Fiz dupla com a cantora Marlene (rainha do rádio) e a convidada era Wanda Sá, que cantava três músicas. O Meu grupo tinha Luiz Alvez (baixo), Robertinho Silva (bateria), Almeida (percussão) e o Cacau (sax).” Na próxima terça-feira, 30, ele estará de volta, no palco do Teatro de Arena. Dessa vez, com os músicos alagoanos do Clube do Jazz, no projeto Jazz Panorama ao Vivo. Para mim, será um reencontro muitíssimo esperado, que já começou a acontecer na tessitura do maravilhoso Encontros – Orquestra Atlântica.