BruMa:Celebrating Milton Nascimento, by Patricia Casses – Jornal o Tempo BH – Brasil

O pianista e compositor carioca Antônio Adolfo não tem dúvidas de que gravar composições de Milton Nascimento é um sonho de todo artista que realmente aprecia a boa música.  “Miton é um cara fantástico”, resume. Não por outro motivo, fazer um álbum todo dedicado ao mais mineiro dos cariocas frequentava seus planos já há algum tempo.
Em vias de concretização, no final do ano passado, Adolfo resolveu expandir sua vontade de bater continência a Bituca para também manifestar sua solidariedade ao estado e a seus habitantes, no que tange às duas tragédias recentes envolvendo o rompimento de barragens (leia mais no pingue-pongue), as de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Já sob o advento da pandemia do novo coronavírus, veio à luz, pois, “BruMa: Celebrating Milton Nascimento” (AAM Music/Rob Digital).
Nos últimos anos, vale dizer, Antônio Adolfo já havia se enveredado por outros discos-tributo, como o dedicado a Ernesto Nazareth e o que reverencia Wayne Shorter, 86.  Por sinal, ele lembra que esse último gravou, com Bituca, “Native Shorter” (1974), “um dos discos que mais impulsionaram a carreira do Milton no exterior”.
Sim, trata-se de um dos álbuns de cabeceira de Adolfo.  Mas a verdade é que seu “namoro” com a lavra de Milton vem desde o final dos anos 1960. “Conheci o Milton quando ele chegou ao Rio, em 1967, para o Festival Internacional da Canção. Veio pelos braços do Agostinho dos Santos”, rememora o pianista, que, à época,  integrava o Trio 3D, junto aos instrumentistas Vitor Manga e Novelli.
O trio, então, foi convidado para gravar “Viola Enluarada”, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, na qual o MIlton tinha uma participação especialíssima. “E, em seguida, fizemos uma temporada no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro, em 1968. ‘Viola Enluarada’ foi um grande sucesso. Daí em diante, as músicas dele ficaram na minha cabeça, até porque, tenho ouvido durante toda minha carreira. ‘Vera Cruz’, me lembro que ele tocava no show, depois gravei com Elis.  ‘Outubro’, que toquei em outras ocasiões, uma música lindíssima. Teve algumas que a Carol Saboya, minha filha, gravou. Eu produzi o disco dela (‘Belezas’, de 2012), que tinha ‘Três Pontas’, ‘Bola de Meia, Bola de Gude’, ‘Tarde’… Enfim, esse namoro musical vem acontecendo há muito tempo”, situa.
Antes de falar sobre as nove canções selecionadas – pepitas como “Encontros e Despedidas”, “Cais e “Nada Será Como Antes”, que virou um ‘shuffle jazzístico’,  Adolfo pontua uma característica que, no seu entedimento, marca todo o trabalho de Milton Nascimento, e que, portanto, norteou as escolhas. “A música dele funde o cantor, o compositor, o arranjador e até o instrumentista. É difícil separar uma coisa da outra quando se ouve uma música dele. ‘Travessia’, por exemplo, que não gravei nesse disco, é dificílima de cantar, tanto que poucos se arriscaram a gravar”.
Neste percurso, ainda antes de entrar em estúdio, Adolfo adquiriu o songbook de Milton Nascimento assinado por  Wilson Lopes e Barral. “Trata-se de um songbook aprovado pelo MIlton. Foi bom porque, com ele, tirei dúvidas que tinha sobre algumas notas. Porque às vezes a gente pensa que é uma nota, mas tem uma cromática em cima, entendeu? E aí, o trabalho foi amadurecendo a partir de outubro do ano passado. Neste ano, gravei na última semana possível de se registrar alguma coisa: no dia 15 de março. Brinco que foi aos 45 do segundo tempo”, compara ele, que conversou com a reportagem do Magazine.
Confira, a seguir, outros trechos da entrevista com o consagrado músico, autor, junto a Tibério Gaspar, da clássica “Sá Marina”.
Qual o critério que te norteou na escolha do repertório? Primeiramente, a minha identificação musical com as composições. Ensaiei de 40 a 50 músicas, e fui vendo as que caíam nos meus dedos com mais naturalidade. Como produtor e arranjador que sou há muito tempo, já tenho uma certa facilidade de identificar as músicas que mais se adequam ao meu estilo e  também ao do grupo que eu tenho gravado, e que já está bem afinado comigo. Juntei músicas mais “antigas”, do período inicial da carreira dele, à fase Clube da Esquina – nesse caso, com duas músicas bem marcantes, ‘Fé Cega, Faca Amolada’ e ‘Nada Será Como Antes’ – aliás, um titulo super sugestivo para os dias de hoje. A mais recente é “Tristesse”, do Milton e Telo Borges. Aliás, uma música lindíssima, que eu já conhecia na gravação do Milton com a Maria Rita e também no disco da minha filha, Carol Saboya. Ao todo, meu disco traz quatro parcerias dele com Ronaldo Bastos, três com o querido e saudoso Fernando Brant, uma com Telo Borges e uma que só do Milton, que, vale dizer,  foi a primeira música dele que eu soube que foi gravada por outra pessoa, no caso Elis Regina: “Canção do Sal”.
Alguma dessas músicas têm um significado especial na sua vida? É difícil dizer  porque tenho a opinião de que o conjunto das músicas forma uma música. Tem uma unidade, um resultado, elas entram numa esfera toda ali – a obra do Milton vista por Antônio Adolfo e seu conjunto. As músicas se fecham num universo, e junta-se tudo isso a meu estilo e ao dos músicos que me acompanham… Então, não tem uma música específica que me toca mais. Mas  claro que tem momentos que me tocam muito.  “Tristesse”, “Três Pontas”, “Outubro”, “Fé Cega,  Faca Amolada”…
O título do disco é lindo. O que norteou sua escolha? Pois é, geralmente os títulos dos trabalhos que tenho gravado nos últimos dez anos surgem depois de já gravados. É como se tivesse nascido uma criança e, daí, você olha para a cara dela e pensa: ‘Essa criança pode se chamar Amália. Ou João. Ou Milton. Mas esse título veio na hora, não teve outro. No caso, senti que o álbum tinha muito a ver com Minas. Sei  que Milton nasceu no Rio de Janeiro, e, mais recentemente, viveu muito tempo lá, embora hoje tenha voltado para Minas.  Enfim,, Minas está presente na música de Milton direto. Inclusive, nós, músicos, a gente sempre brinca que aquelas montanhas de Minas fazem com que os acordes sejam harmoniosos, sofisticadíssimos… No ano passado, tivemos o segundo acidente desse tipo (referindo-se ao rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em janeiro de 2019). E cada vez que eu via as notícias na TV ou lia alguma coisa… os desaparecidos, as plantações devastadas, os rios, as matas… A tragédia anterior, a de Mariana, cuja lama, pelo Rio Doce, entrou pelo Espírito Santo… Isso não pode se apagar da nossa memória. E isso tem muito a ver com o povo de Minas, tem a ver com o sentimento de achar que as coisas estão indo por água abaixo, entendeu? Tudo varrido. É um crime! É um crime, um crime muito grande. Eu me lembrei de Brumadinho e de Mariana, e, ao mesmo tempo, a palavra bruma, tem muito a ver com montanhas, também. Névoas, altura. Uma palavra que acho linda. Então, é uma homenagem a quem sentiu no corpo e na alma essa tragédia toda: não só os moradores, mas todos que foram tocados por tudo isso. Complementei o título com um ‘Celebrating Milton Nascimento’, em inglês porque estou lanaçndo o disco no exterior. No Brasil, não tenho planos de lançar o disco físico, mas já está nas plataformas (Spotify, Deezer. ITunes e outras).
Milton Nascimento já te deu algum feedback? Olha estou louco para que ele ouça, quero muito que dê a opinião. Pelo fato de não ter o disco físico, não dá para enviar. Mas espero que ele goste. Eu tratei as músicas com maior carinho, aliás, nem precisava dizer isso, porque nem sei fazer de outra forma. Dei muito de mim nesse trabalho, talvez tenha entrado com uma contribuição harmônica, acordes, com as formas da música. O que mexi em melodia foi para acrescentar uma coisa ou outra, mas realmente com um respeito muito grande à obra do Milton Nascimento, a quem admiro demais.
Como está a sua vida nesta quarentena? Como a de vários músicos:  não temos trabalho. Eu tenho uma escola de música (Centro Musical Antônio Adolfo), e estamos fazendo o máximo para que ela continue por meio de aulas online.  Acho muito importante não parar a educação. Quanto a mim, desde que gravei esse disco e desde que o mundo fechou, vamos dizer assim, desde que parou, estou estudando.
Que pensamentos te assolam com uma pandemia em curso? E o que espera do mundo quando tudo isso passar? Olha, a gente, quando acha que a coisa está melhorando aqui, piora ali. Acho que só com o tempo mesmo, se acharem a vacina. Se não, vai ser uma miséria total. E falo em todos os sentidos, desde a sobrevivência financeira, o que já está aparecendo aí. Há muitos músicos passando dificuldades enormes. E há pessoas que estão sem dinheiro para comer, é barra pesada. Fora isso, as pessoas estão ficando paranoicas dentro de casa, trancadas. Mas acho que pode servir para abrir os olhos – espero! Digo em relação ao que o ser humano está fazendo por aí, inclusive causando tragédias como as que citei, as de Brumadinho e Mariana. E desmatamentos, poluição do ar, aumento do nível da água nos mares e oceanos. Gente, começo a falar nisso e fico preocupadíssimo. Mas espero que esse momento sirva ao menos para isso. Que o ser humano tenha mais cabeça e menos ganância e arrogância. Mas não sei se estou muito otimista, não. Queria ser mais.
Em tempo: O CD, gravado no Brasil, em cinco dias, tem os músicos Cláudio Spiewak, Lula Galvão e Léo Amuedo (guitarras), Jorge Helder e André Vasconcellos (contrabaixo), Rafael Barata (bateria/percussão), Dadá Costa (percussão), Jessé Sadoc (trompete/flugelhorn), Marcelo Martins (flauta contralto/sax tenor), Danilo Sinna (sax alto) e Rafael Rocha (trombone).
Confira no Spotify:
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